domingo, 27 de maio de 2012

Esmaecido

num umbigo manhã
                                 vem dela a sombra que sopra e assopra
de sorriso em sorriso amarelo encardido
                somova-se ditos
vinha ele correndo e curvando as calçadas

e aponta lá o passo do trouxa, diziam
"E veja lá, o homem de h's, numa procura do alcance par"

corre pula berra o cabrito menino, sujo risonho, moleque ontem

por certo vivia questionar
                                         aperto braço beijo dado
pulava por saltos altos
            como quem pula de braços a abraçar céu e ar

eu chorava espera, eu caia calmaria, eu dizia soprar

"Venha cá meu nego, ponha-se deitado no quente dos meus braços"

dizia o passado mulher a quem me referia navegar em vigor                                                 

sexta-feira, 4 de maio de 2012


o que pra ti isso significa?
mudança de
                    estação ou
a vida
dizendo não?

é preciso permanecer atento
alerta de que a vida
anda
e perna apenas
passeia
e nos pés todo o pesar

o coração só tem o trabalho de bater
e doer quando há dor

caso ele pare
paro eu para sempre
pra você
               pára apenas alguns minutos dias meses ano
não há para sempre

do outro pra nós
     o pra sempre é sempre nosso
esse eterno fardo de carregar

                                              os nossos
                       próprios sacos e ovários



segunda-feira, 30 de abril de 2012

não quero nada
nadar contra a maré
não é lá rima fácil
não, nem mesmo sei
se o vento que faz
cospe-me
pro lado errado
ou pro lado contrário
pensamento novo
e de novo
não acredito no novo
um menino desses de unhas sujas
me bateu a porta
pedindo esmola

dei-lhe um tiro na cachola
e voou idéias para tudo que é lado

sexta-feira, 20 de abril de 2012

dedicado


— sabe mãe
dói aqui
              há meses

não sai sol
dor sem sol
dor sem sal
                   
                    sem língua, sabe
                    uma íngua, não sabe
                    uma casquinha
                    uma coceirinha
                    uma ferida
uma mentirinha, sabe?

— uma vida, menino.

sábado, 17 de março de 2012

este que chora, sou eu
       não o eu do corre-corre
       sangria desatada
       lacrimejando entre fumaças
este que chora
                       é sal e água
                                          berreiro
                       boca aberta



        minha
alma
estampada
na faceta
               cavera da 
                           cara

sábado, 10 de março de 2012

apesar desta
                      altura
uma criança bate
        em
        mim

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

desdenho

desce e sobe
feito gesto
um novo jeito
obsceno
de
observar
o teu plano verso
avesso
do cheiro
que absolutamente
não me esqueço
o cheiro
do teu cheiro

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Esta carcaça pesa, amigo
a carcaça custa
                    e fuça
              tritura

Esta criatura
                     de céu
              pelos e unhas
pisa e se mistura
                  nega o sangue
e lambe os buracos da
                                     carne
           cheira e fede
 e mete
             inerte
      sua
             não nunca
      sonha
dorme e dissolve
                            o querer e a coragem

não quero embrutecer, amigo

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Desembarque

Pairar de nuvens, mutuação, xiitas, prédio árvore unha céu, pulmão. Estes galhos e folhas, invasão, não vê, não verde.
"O plantio de postes e fios tem crescido ano a ano, nossos canteiros de flores calçadas e asfalto tem enfeitado a cidade inteira, quando chuva, enchente. Peixe pneu".
Acinzentado.
Gente cansaço.
Corrida contra o tempo.
Engarrafamento
Estupidez.
crescimento.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

                             e
    se
        tudo que
                        tememos
nos
        temesse?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Isto que acontece aqui e lá

                                                                                                 Para Rafaela Gimenes
falha na fina carne, na firme carne
o rompimento entre o teu e o meu abismo

o insulto, um espaço tempo, o susto, o reencontro
pronto, mais um susto e vamos nós há mais um ponto

fundo, muito escuro, quase puro
são estas tuas e minhas olheiras olhos faróis janelas cancelas
são estes barcos à vela,
que vão vão vão e dão dão dão
em qualquer lugar que queiram dar mar soprar rio navegar

o debate, o abate, o disfarce, me fale, vamos, diga algo
daí: tanta língua tanta verdade tanta mentira tanta sacanagem tanta vida

burramente o pé na porta

a tremula carne se nega, espasmos
falo na boca da tua boca
papo, não trato, falo, acabo,
resmungo um mundo e lhe deixo com um beijo no lado direito do rosto
eu sofro



(Ao som de René Aubry - Fil de Verre)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

terça-feira, 2 de agosto de 2011

nome próprio (descendo as escadas)

Sul de céu
  azul.
     Ana cochila no samba,
ou será "cochicha no samba"?


Bem, de santa, Ana 
- de certo - 
não tem nada.


A palavra: SUZANA, uma escada.

(o poeta ri)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

In memoriam (filho de Gaia)

Penso.
Penso mais.
Mais.
Olho para baixo e vejo meus dedos digitarem este texto.
Pensei em dizer aquilo, mas talvez aquilo outro seja melhor aqui. Não que haja segredos, até porque publico todos sem discriminação - certo ou feio - são, vão e pronto.

Tracejo.
Calmo e estúpido, impoluto.
Tracejo:
Boca.
Nariz.
Olhos.
Orelhas.

A boca, os olhos e as orelhas são mais difíceis, refaço, rasgo, xingo, vou mijar, volto, ascendo a luz da vela, xícara, vinho, depois café.

Sigo.

Memória experimental, bêbada, risonha, me passa a faca preu rasgar o pão. Rasgo:

Havia uma pia, nela a bunda, o rasgo, o amasso, a língua. O não e o não, o não gritando desesperadamente que sim - sabíamos do estrago - de pé rolávamos. 

Pratos facas garfos colheres
levitavam todos
lentos
mudos todos
esbarravam-se
caiam todos
inteiros todos

Não levitava eu e você
Que corações amargos, pesados
Soluçam penumbram apenas
Fazem da vida instante agora, cacos

Posso lhe dizer que me curei. Você?

Pausa.

É tarde, o sol está lá nascido a 3 horas, a cama e você desarrumadas, tão clarinhas e lindas as duas - naquele momento quis grudar os olhos no teto, apesar que podia eu imaginar ver você assim do alto, um desenho desalinhado harmônico - lençóis brancos sobre o corpo teso de mulher de 27 anos. Do teu lado direito, no chão, estava lá meus ossos cobertos por esta capa de pele e pelos que chamam, que chamo de Eu e o colchão magro e duro, cansado.

Soluço.

E tudo aquilo se desfaz como a rapidez da luz, o cheiro de agora é de um café apressado, quase calado, estamos na mesma cozinha clara beje, nada levita, nem mesmo os aromas de café e pão, que parecem até rastejar-se pelo chão, como quem fojem.

Bagunço as idéias.
Digo: não direi uma só palavra sobre esta despedida, sobre este corredor feio estreito, sobre aquela escada e seus degraus, sobre você. Direi de mim, que é o que sei.

E o poema me escorreu pelas pernas, manchando as vestes, o mais prematuro dos prematuros, meu aborto, meu coito.

Tracejo.
Sobrancelhas cabelos pescoço...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

                                                                                          Para Daniela Sophie
sei, andei e ando

                            sem ti
                                      do
                               que
 me
                               serve

esta palma da mão
esta
        anotação
                       na
                           palma
                           da
                           memoria

e ando
e amo

                                        respiro

eu acredito
eu insisto
eu infinito
                eu morto
           eu dentro do seu corpo
     eu grito
            gemo
                     eu lembrança
                     você cheiro


calmo                                          só

                    na falta
                    do que
                     nunca
                      tive

pai mãe irmãos amigos

                                    aqueles
         que no desespero
         aqueles
                     que no berço da saudade

gritei
chorei
liguei
rezei


        e fui feliz


(Ao som de René Aubry - Invites sur la terra)

sábado, 28 de maio de 2011

construção

filho do Sol
filho da Lua
filho da Puta

Pro meu pai

Pras horas que há explosão em meu estômago
A benção que já não mais lhe peço
Do que combinamos, eu nunca cumpri
Vários atrasos, duzentos mil palavrões

Minha falta de cheiro

Faca serrote martelo felpas, meus dedos
Teu cafuné, cabelos
Nossas rugas, as que fiz, as que lhe fizeram o tempo
Seu enorme pé, tuas mãos
Cê tem chulé
Café bom
Do que eu e você não acreditamos mais
Sardas e cordões
Sem canções, talvez uma agora, sei não

Me acorda, vai
Me leva pra escola
Pro trabalho contigo
Um abraço
Uma chance, vai

Tá, eu vou dormir cedo.
Vou dar um jeito.
Eu sei, tá bom!
"Você sempre sabe, Raul."
Me arranja um trocado?

Eu sempre admirado, mesmo que distraído
Você sempre tão humano
Cara de bravo

Traga as malas, corações
Trovoadas, uns vários riscos no céu, chuvarada

Dá descarga
Calce o chinelo
Ó a friagem
Volte cedo
Olhe o tempo que cê tá no chuveiro.

As muitas há muitas um bilhão
Exagero

Vou sempre, sei bem eu, que sempre, sim
Te amar muito, cara!